quinta-feira, 20 de março de 2014

Meio de cultura para egos.





Quem nunca teve oportunidade de observar trabalhadores do Movimento Espírita em momentos diferentes de suas atividades? Ora atuando como Expositores ou Coordenadores de Grupos de Estudos, ora participando de reuniões administrativas ou treinamentos em alguma área de trabalho, oferecidos por Casas Espíritas ou pelas Federativas? Em certos casos, a disparidade na personalidade é tão evidente que salta aos olhos. Diríamos, sem sombra de dúvida, que parecem até pessoas diferentes. E, certamente, o são, como diria a Psicologia ao classificar as várias “personas” ou máscaras, que todo ser humano assume de acordo com a situação que vivencia em diferentes momentos. Então, se é assim mesmo, qual deles é o verdadeiro? O palestrante e/ou coordenador de voz aveludada que você ouve e imediatamente se apaixona ou o enérgico defensor de suas posições nos encontros administrativos e/ou de treinamento? Haveremos de concordar: todos somos muitos, assim como o famoso espírito Legião. E todas as nossas várias faces são verdadeiras, porque representam cada uma um traço diferente de nossas personalidades seculares. O desafio é promover o diálogo entre as partes para que o todo seja beneficiado. Em outras palavras, permitir que a fala da humildade seja a primeira a ser ouvida, abafando os argumentos do ego, não importa qual seja a situação. Antes de tudo, devemos considerar que a própria estrutura do Movimento Espírita, promovendo a exposição ao invés da imposição, é um grande facilitador para o engrandecimento de egos. Não por culpa da organização, mas sim pelo simples fato de que ainda não estamos devidamente preparados para a liberdade. Somos aqueles que comem melado pela primeira vez. Antes, nos diziam como fazer tudo: que roupas usar nos cultos religiosos, o comprimento de nossos cabelos, de nossas saias, quais eram nossas poucas obrigações para ir para o céu e por ai afora. Nosso acesso às camadas superiores da hierarquia religiosa era limitadíssimo e muito comumente ligado a um sacerdócio. Agora, no seio da mãe-doutrina espírita, praticamente todos os degraus nos são facultados e ainda somos estimulados a galgá-los.  Com tanta facilidade, se não segurar o ego, ele subirá sempre uns dois ou três degraus na nossa frente. Ainda mais quando constatamos que ainda estamos longe da meritocracia plena e apenas quebramos o galho com a “conhecimentocracia”. Ou seja, saber mais é “status” e substitui, na falta deste, o merecer mais. Não por acaso, a Espiritualidade Superior nos envia contínuos e insistentes alertas para nos observarmos a nós mesmos e identificarmos possíveis invasões de egos inflados em campos de trabalho da humildade. O Espírito Vianna de Carvalho (Luzes do Alvorecer – psicografia de Divaldo Pereira Franco, Espíritos Diversos, Salvador (BA), 1996, Ed. Leal) nos dá um recado muito claro: “O Espiritismo resiste aos seus oponentes, (...) e aos seus adeptos invigilantes, que se deixam fascinar pela vaidade, buscando promoção do ego, projeção da personalidade doentia, através da sua extraordinária contribuição.” Observemos que o Espiritismo acaba tendo que resistir, além de aos oponentes, também aos seus próprios adeptos invigilantes. Que encontrarão neste meio, certamente, um ambiente muito propício para favorecer o desenvolvimento de grandes colônias de seus egos vaidosos e doentios. Mas, não esqueçamos: todos temos também as sementes de trigo, além das de joio. Está na hora de oferecermos nossa outra face ao Movimento Espírita. Em troca de muita luz e terreno fértil para um crescimento sustentável por toda a eternidade.  

Carlos Alberto Ferreira da Costa

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