Quem nunca teve
oportunidade de observar trabalhadores do Movimento Espírita em momentos
diferentes de suas atividades? Ora atuando como Expositores ou Coordenadores de
Grupos de Estudos, ora participando de reuniões administrativas ou treinamentos
em alguma área de trabalho, oferecidos por Casas Espíritas ou pelas
Federativas? Em certos casos, a disparidade na personalidade é tão evidente que
salta aos olhos. Diríamos, sem sombra de dúvida, que parecem até pessoas
diferentes. E, certamente, o são, como diria a Psicologia ao classificar as
várias “personas” ou máscaras, que todo ser humano assume de acordo com a
situação que vivencia em diferentes momentos. Então, se é assim mesmo, qual
deles é o verdadeiro? O palestrante e/ou coordenador de voz aveludada que você
ouve e imediatamente se apaixona ou o enérgico defensor de suas posições nos
encontros administrativos e/ou de treinamento? Haveremos de concordar: todos somos
muitos, assim como o famoso espírito Legião. E todas as nossas várias faces são
verdadeiras, porque representam cada uma um traço diferente de nossas
personalidades seculares. O desafio é promover o diálogo entre as partes para
que o todo seja beneficiado. Em outras palavras, permitir que a fala da
humildade seja a primeira a ser ouvida, abafando os argumentos do ego, não
importa qual seja a situação. Antes de tudo, devemos considerar que a própria
estrutura do Movimento Espírita, promovendo a exposição ao invés da imposição,
é um grande facilitador para o engrandecimento de egos. Não por culpa da
organização, mas sim pelo simples fato de que ainda não estamos devidamente
preparados para a liberdade. Somos aqueles que comem melado pela primeira vez.
Antes, nos diziam como fazer tudo: que roupas usar nos cultos religiosos, o
comprimento de nossos cabelos, de nossas saias, quais eram nossas poucas
obrigações para ir para o céu e por ai afora. Nosso acesso às camadas
superiores da hierarquia religiosa era limitadíssimo e muito comumente ligado a
um sacerdócio. Agora, no seio da mãe-doutrina espírita, praticamente todos os
degraus nos são facultados e ainda somos estimulados a galgá-los. Com tanta facilidade, se não segurar o ego,
ele subirá sempre uns dois ou três degraus na nossa frente. Ainda mais quando
constatamos que ainda estamos longe da meritocracia plena e apenas quebramos o
galho com a “conhecimentocracia”. Ou seja, saber mais é “status” e substitui,
na falta deste, o merecer mais. Não por acaso, a Espiritualidade Superior nos
envia contínuos e insistentes alertas para nos observarmos a nós mesmos e
identificarmos possíveis invasões de egos inflados em campos de trabalho da
humildade. O Espírito Vianna de Carvalho (Luzes do Alvorecer – psicografia de
Divaldo Pereira Franco, Espíritos Diversos, Salvador (BA), 1996, Ed. Leal) nos
dá um recado muito claro: “O Espiritismo resiste aos seus oponentes, (...) e
aos seus adeptos invigilantes, que se deixam fascinar pela vaidade, buscando
promoção do ego, projeção da personalidade doentia, através da sua
extraordinária contribuição.” Observemos que o Espiritismo acaba tendo que
resistir, além de aos oponentes, também aos seus próprios adeptos invigilantes.
Que encontrarão neste meio, certamente, um ambiente muito propício para
favorecer o desenvolvimento de grandes colônias de seus egos vaidosos e
doentios. Mas, não esqueçamos: todos temos também as sementes de trigo, além
das de joio. Está na hora de oferecermos nossa outra face ao Movimento
Espírita. Em troca de muita luz e terreno fértil para um crescimento
sustentável por toda a eternidade.
Carlos
Alberto Ferreira da Costa

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